Instruções para caminhar no escuro

 

Uma casa sem janelas, sem portas de saída

Um corpo  rabiscado pelas mãos do outro

Esse outro que invade, habita sem permissão, silencia, decreta

Palavras engolidas antes do café

A vida ficando cada vez mais borrada

E as tantas metáforas de silenciamento e voz

O que fere é o amor?

A gente não percebe, mas quando vê está pisando em ovos como nossa mãe que aprendeu com sua mãe, que aprendeu com sua mãe, que aprendeu com sua mãe

Mães herdando de mães

Olhar a cara fechada, aceitar o punho cerrado

Mergulhar em silêncio ensurdecedor

O que fere é o quê?

O amor transmutado em toques brutais

A maquiagem do medo, efeito sombrio

Desse inverno de dentro que sonha com a primavera de fora

Lá fora tudo é lindo

Anuncia possibilidades, esperança e voz

O fim do mergulho

A quebra do pacto

Uma mão que segura outra mão, que segura outra mão, que segura outra mão

Mãos entrelaçando mãos

E criando outros laços nesse novo lugar de quem desenha no corpo a própria cicatriz.

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